"Todos os meus versos são um apaixonado desejo de ver claro mesmo nos labirintos da noite."
Eugénio de Andrade

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Meu amor

Sabe, menina, a mim o meu homem nunca me chamou “meu amor”! Não era dado a essas coisas. Ia direito ao assunto, e… pronto!
Ao princípio ainda me queixei…à minha mãe, e ela apressou-se a dizer que ele estava no seu direito, as mulheres tinham que aguentar e sofrer, que era assim desde o princípio do mundo e assim havia de ser …
Ele era um pouco bruto, tinha que ser quando e como ele queria, não sei se me entende, e depois virava-se para o outro lado, e roncava…Eu ficava ali, no escuro, a tentar perceber como é que as raparigas tanto sonhavam com o casamento, no meu tempo sonhavam, menina, acredite, e depois era aquela coisa tão horrível!...
Mas o mudo, sim! Ai, menina, o mudo! Se não fosse ele, nunca eu tinha percebido como “aquilo” afinal podia ser tão bom…Não, não me arrependo!...quer dizer, em tempos, assim uns remorsos, por causa do mudo…Morreu tão cedo…Pobre homem! Tão terno, tão carinhoso…tão…ai! Aquele olhar dele, manso e sereno como as searas, a chamar-me de “ meu amor”!...Dava-me um estremecimento cá por dentro…
Foi por isso que o meu homem…Ficou cego, quando soube. Já andava desconfiado…e eu não tinha como negar…Ele tinha-me por inteiro…O meu homem tinha o meu corpo, tinha direito a ele, mas o meu coração…ai, esse pertencia ao mudo…
Ainda lhe procurei porque me não tinha matado a mim…O mudo não fazia mal a uma mosca…Sabe o que me respondeu? Que eu era precisa para cuidar dos filhos e das terras…
A quem, ao meu homem? Não, menina, nunca o odiei por isso…Ao princípio sentia assim umas ondas de raiva, mas depois passou-me!...E ele não era mau de todo! Era trabalhador, meu amigo e dos filhos, mas não tinha jeito para meiguices, pronto, era tudo à bruta! E eu até lhe queria bem…Não foi só ele que se castigou lá na prisão, olhe que eu também sofri! E tive que criar os filhos sozinha, a minha São ainda não tinha três anos…
Mas o meu mais velho, uma vez, entrou-me em casa, devia ter aí…uns catorze anos, se tanto… olhou para mim cheio de ódio e gritou-me: “ Afinal o pai está na choldra porque vossemecê lhe pôs os chavelhos! “ Oh! Menina, agarrei no cavalo-marinho, e malhei, malhei, malhei, até o diabo dizer “ bonda!”Atão aquele manganão estava a viver debaixo das minhas telhas, e assim me faltava ao respeito? Aquilo era entre mim e o pai dele! E o pai estava na choldra, porque tinha assassinado um homem, pronto! Mas olhe, quer saber? Deu-me uma coisa, atirei com o cavalo-marinho, e desatei a correr pelo campo fora, que nem uma doida! Só parei quando já não tinha forças para dar nem mais um passo…Senti as lágrimas a caírem-me pelos queixos. Depois começou a chover, e fiquei ali a receber aquela água toda, como se precisasse de lavar a alma. E tomei uma resolução: entrei na ribeira, e fui caminhando pelo açude adentro. Já tinha a água pelo pescoço, quando parece que levei uma sacudidela, olhe, há momentos do diabo, mas a gente também os vence…
A menina vai lá botar isto tudo? Mas não prante lá o meu nome, não? Envergonho-me! Atão está bem.
Quando o meu homem saiu da prisão, veio para casa, pois atão! A casa era dele e minha, e eu não sabia o que ele queria fazer. Era o que ele quisesse. Era o meu homem, o pai dos meus filhos, recebi-o na igreja, para o bem e para o mal, até morrer.
Ora, menina, atão, aquilo com o mudo aconteceu, pronto! A gente não pensamos nestas coisas, são tentações, e quando se vai a ver, já está feito! Ai! Mas fui tão feliz com ele! Tinha umas mãos! Ai, ele sabia, ele sabia como se fazem as coisas! Sabe, eu acho que tudo acontece porque tem que acontecer. Não há volta a dar-lhe! Ao princípio revoltei-me muito, mas depois aceitei. Tive tempo para pensar, para pensar muito! O mudo ensinou-me a amar de uma maneira diferente…e vê, depois do meu homem sair da prisão, ainda nasceu o meu Henrique…O meu homem mudou …tornou-se mais atencioso comigo, na cama, quero dizer…Não, nunca me chamou “ meu amor”, mas pronto, tinha um jeito diferente, mais preocupado com o meu sentir, mais desejoso de me fazer a vontade, para eu…enfim…sabe o que eu quero dizer, não sabe?
      A minha mãe, coitada, nunca soube como é uma mulher gozar com um homem! Eu fui feliz com dois…Com o meu homem, só depois de ele sair da prisão…Atão foi assim: quando veio, foi dormir num divã que tínhamos no sótão. Nem nunca falámos do mudo…Eu punha-lhe o comer à frente, tratava da casa, e ele lá ia prás terras, como se nada tivesse acontecido. Não falávamos muito, ele nunca foi de grandes conversas… Andámos nisto à volta de meio ano…Uma tarde, estava eu a pilar umas favas na cozinha, e sinto um olhar em cima de mim. Levantei a cabeça, e lá estava ele na soleira da porta, a olhar para mim muito sério. Eu olhei também para ele, e ficámos a olhar um para o outro uma eternidade. Não dissemos uma palavra! Olhe, não sei como aquilo foi, quando dei por mim, estávamos os dois a rebolar no chão …É como lhe digo! Ai que risada! A partir daí veio prá nossa cama, e olhe, foi até morrer… Nunca me chamou “ meu amor”, mas apanhou-lhe o jeito!

 O mudo entrou na minha vida para eu ser feliz! Nunca o esqueci, nem nunca vou esquecer! Olhe que já lá vão mais de 60 anos! Ai! O que é a vida! Tenho saudades dos dois por igual! E nunca me arrependi de nada! Ó menina, não ponha o meu nome no livro, pelas alminhas! Não quero cá agora problemas com os meus filhos, ainda era o que me havia de faltar! 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Com a respiração...

Com a respiração
Entrecortada
De silenciosos temores
Abro-te uma brecha
Na alma parda da noite.
Nunca é demais
Correres ao sabor do vento
Sentes
Dormentes e tensos
Os afagos secretos
Impregnados
De líquidos acenos
Rabiscados no fragor das ondas
Também os violinos me crescem nas mãos
Como saber quando parar
Agora que já nem o sonho
Me espanta nas manhãs

Sonolentas que te remeto. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Gato



Há algum tempo que me debato entre a vontade de ter um gato, e o medo de, por qualquer motivo, vir a sentir que abri portas a um empecilho de que não me apetece cuidar. Sempre que aparece algum artigo que fala de gatos, leio, com curiosidade, vou-me apercebendo da grande espiritualidade que lhes é atribuída, e vou-me deixando conquistar pela personalidade destes bichanos.  
Mas a decisão tarda a vir. De vez em quando, aparece uma ou outra amiga a oferecer-me um bichano. Tenho respondido que gosto deles pretos. Desta vez, a oferta era irrecusável: um gatinho preto, de olhos verdes, manso (por enquanto), estava pronto a ser por mim adotado.
Cortei-me. Consultei o meu filho, que se mostrou favorável ao acolhimento de um novo membro na família. Consultei a minha filha, que mostrou uma grande abertura, confessando como também ela gostaria de ter um, mas como o marido é alérgico, está fora de questão. Mas também me alertou para o caráter imprevisível de alguns deles, dando-me referências de bichanos que pertenciam a algumas das suas amigas. Uns meigos, outros completamente malucos e agressivos... É preciso certificar-me da índole do animal. Fora isso, são muito independentes, não dão trabalho, ficam sozinhos por períodos curtos…
Mas, pensei: e se adoece? E se se revelar deficiente, com o de uma das suas amigas? Se tiver um gato, tenho que ser responsável por ele, pensar que, nos próximos …vá lá…15 anos, estou de vida atada a um gato…Não quero ter de devolver o bicho…Se tomar essa responsabilidade, tem que ser para o melhor e para o pior, até que a morte nos separe, a dele, ou a minha. Pois…bem sei que estas promessas se podem violar… Mas não quero ter que me divorciar de um gato, pronto! Perguntei ao meu marido. Ficou ligeiramente alterado, enquanto me dizia que, se eu tomasse essa decisão, o gato era exclusivamente meu, não queria saber da existência do animal, eu é que dava comida, cuidava, levava ao veterinário… Sabia muito bem como eram as coisas, o que tinha acontecido com a cadela, que era minha, mas depois ele é que teve de cuidar…
Respondi-lhe que a cadela tinha vindo para casa a conselho do pediatra, por questões terapêuticas…Era benéfico para um desenvolvimento saudável dos miúdos, partilhar a responsabilidade de um animal. A cadela não era minha, era deles. Mas, de facto, quem tratava, era eu. Até ficar farta de estar constantemente a limpar a trampa que ela fazia, pois nunca a consegui educar a fazer as necessidades num sítio certo.
Bom. Decidi, então, que não ia haver gato. A nossa filha quis saber porquê. Eu comecei a explicação: porque o pai…
O meu marido innão gostou.
__Alto lá! Não é porque eu…Se quiseres assumir, assumes, mas o gato, para mim, não existe.
__Então, e nós somos o quê? Eu vivo contigo, ou vivo com o vizinho? Não somos uma família? Eu só traria um gato para casa, se tu aceitasses…
__Pois, com a cadela…
__Mas a cadela foi diferente…Tu não querias, mas eu achei que era importante para os nossos filhos…E tu acabaste por aceitar e gostar dela…
A conversa ficou por aqui, para se não azedar.
Hoje fazemos anos de casados.
O meu marido apareceu em casa com um ar comprometido. Trazia uma caixa com ele. Pousou-a em cima da mesa, e disse-me:
__Nem sabes o que aconteceu! A Dona Ermelinda, aquela minha cliente que mora na aldeia, e nos costuma mandar ovos…
__Sim!...__ respondi com um grande sorriso, adivinhando o que vinha na caixa, enquanto o meu olhar ufano e surpreendido passava da caixa para ele, e dele para a caixa.
__Deu-te um gato!...__ rematei
Ele limitou-se a assentir com a cabeça, lentamente…
Dirigi-me à caixa, levantei a tampa, ansiosamente, e… lá estava um gato: um gato bem lustroso, não preto, como eu sonhara, mas castanho. Castanho dourado. Jazia no fundo da caixa, inerte, sereno, placidamente. Sem uma palavra, tirei o gato da caixa. O gato era de louça.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A vingança serve-se fria

Sabia bem o quanto era o alvo da chacota deles todos. Gozavam com a sua fala arrastada, com aquele som que lhe saía como se tivesse o nariz entupido, com as palavras que se lhe enrolavam na língua e que ele não conseguia pronunciar como os outros. Gozavam com a sua falta de jeito, com a lentidão com que fazia as coisas, com os pensamentos que se lhe atropelavam e que não conseguia explicar. Sabia muito bem que quando o convidavam para um copo e uma sardinha na taberna do Ti Zé das merendas, era só para se rirem dele. Deixá-lo! Fazia-se teso, como se aquelas gargalhadas de escárnio se lhe não entranhassem na pele, nos ouvidos, no cérebro, e não lhe ficassem a martelar na cabeça, impedindo-o de dormir logo, como gostava.
Um dia…um dia…havia de se vingar…bem, ele lá se ia vingando à sua maneira, rindo-se com eles das suas próprias incapacidades. Mas, pelo menos, não se deitava com a barriga vazia. Dava-lhes o que eles queriam. E recebia o que lhe fazia falta. Mas eles é que perdiam, sem se aperceberem que até exagerava nas palermices, inventava coisas que não fazia, armava-se num trapalhão ainda maior do que era. E ao arrancar-lhes tantas gargalhadas, que alguns até diziam que se mijavam a rir, tinha a certeza de que o garrafão se ia inclinando generosamente para lhe encher o copo sempre que estava vazio, que podia surripiar à vontade as lascas de bacalhau, as iscas de presunto. E exagerava nos olhos arregalados, na cara de parvo com que Deus o castigara, arrancando gargalhadas daqueles alarves. No fundo, era a sua maneira de sobreviver, tal como fazem os palhaços, no circo, ou os atores no palco.
Ouvia-lhes os comentários nas costas, pensando talvez que os não ouvia, ou não percebia o alcance do que diziam:
__O Tó Tonto é cá um personagem!
Pois bem! Que pagassem pelo tanto que se divertiam.
Um dia convidaram-no para uma jantarada. Tinham caçado um javali. Convidaram-no para ser o bobo que ia diverti-los a todos. Já sabia o que lhe iam perguntar: como tinha morrido o avô.
Ai o avô fazia-lhe tanta falta! Agora já não tinha ninguém! Tinha morrido a única pessoa que o amava, que o conhecia por dentro e por fora, a única pessoa com a qual não precisava se fingir, de se fazer mais tolo do que era. Era tão carinhoso para ele! Mas às vezes, também um tanto impaciente. Dormiam juntos, na mesma cama. No inverno, debaixo dos cobertores puídos, confortavam-se com o calor do corpo um do outro. Durante o último mês, andara a arrastar-se pelos cantos, chorava com uma criança, sem vontade de rir, de comer, de dormir. E eles divertiam-se, quando lhe perguntavam como tinha morrido o avô e ele se perdia em pormenores, contando tintim por tintim a agonia do avô, trazendo até à praça a sua intimidade. Bem via como todos se riam, embora se fingissem muito pesarosos, mas ele não conseguia deixar de falar nos últimos dias da existência daquela alma que tanto o amara…Chamavam-no para ao pé deles, e riam-se nas suas costas com o seu relato. Não sabe como se aguentou. Só bebia, e, ao outro dia, quando acordava, todo vomitado, nem sequer sabia como fora parar à cama.
E agora convidavam-no para se divertirem à sua custa e do avô. Se pensavam que iam levar a melhor, estavam enganados. Esperavam que ele chorasse baba e ranho, que ficasse muito dolorido, enquanto eles enfardavam do javali.
Ouvia-os cochicharem. Houve quem perguntasse que fazia ele ali. Que já eram bocas de mais, que davam bem conta do recado sem aquela boca glutona a roubar-lhes os bocados mais apetitosos. Que não se amofinasse, responderam, que ele ia desatar a choramingar e não ia comer nada. Fingiu-se de tolo, como convinha, papel, aliás, que ia muito bem com ele.
Quando se atirou a um bom naco de javali, bem viu pelo canto do olho as cotoveladas que alguns trocaram, numa chamada de atenção para o porem na ordem. Veio então a pregunta que ele já esperava.
__Então, Tó, conta lá, como é que morreu o teu avô?
E a resposta veio rápida e concisa, tão rápida quanto a sua deficiência na fala lhe permitia:
__ De repente!
E ponto. E, enquanto os seus anfitriões se refaziam da estupefação, enterrou os dentes no javali, e foi emborcando os copos de tinto. E, naquela noite, ninguém mais lhe arrancou uma palavra, enquanto se não sentiu completamente saciado.
Foi a sua vingança.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A mãe...

A mãe tem a dor da tua ausência
A morar com ela…
Tem o eco dos teus passos
A ressoarem nas escadas
Aquele bater da porta
Quando por ela entravas,
O eco da tua voz a chamar por ela.

Tem a dor da tua ausência
Presente em cada gesto,
 Em cada um dos segundos
Da sua vida
Subitamente desabitada de ti…

Na casa instalou-se o vazio.
Eras tu o seu esteio, a sua força,
O seu porto seguro…
Mesmo nos teus gestos mais ríspidos,
Nas tuas palavras mais impacientes,
Estavas tu, inteiro e material.

Acudia ao teu apelo,
Tocava-te, e estavas ali.
Custava-lhe a acreditar
Que o seu homem tão forte
Fosse feito de fraquezas.
E quando te abraçava
Sentia os teus ossos a furarem a pele,
A confusão a turvar-te o discurso sempre fluido,
A bengala mais pesada e titubeante…
Mas ignorava os sinais…

Partiste, e o vazio instalou-se.

Os gestos que ora inaugura
São tímidos, inseguros,
Perdidos do caminho
Que sempre para ela traçaste…

E eu sinto-a frágil, inquieta,
A soerguer-se do pesadelo da tua partida,
Os passos inseguros, o olhar ainda incrédulo…

Mas enquanto profundos suspiros
Lhe sobem do peito,
E a sua alma desliza nas lágrimas
Silenciosas que lhe correm pela face,
Vai lentamente tecendo
Forças nas suas fragilidades
E eu sinto-me submersa de ternura…

Dói-lhe caminhar sem ti.
Dói-me sabê-la sem ti.
Dói-me…dói-me…dói-me.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O EGO


Há pessoas com o ego tão empolado, que acreditam que o mudo gira à volta delas e do seu umbigo.
 Há pessoas que fazem o que podem para sabotar o trabalho dos outros.
Há pessoas que se julgam imprescindíveis para que as coisas rolem. E se as coisas rolam, apesar da sua demissão, hasteiam o discurso de preteridas, porque as suas opiniões iriam estorvar as decisões dos outros.
Há pessoas que esquecem que democracia não é os outros fazerem o que elas desejam.
Há pessoas que às vezes precisam de largar a carga inútil para poderem avançar.

Há pessoas e pessoas.

sábado, 26 de setembro de 2015

O Coelhinho da menina

Era uma vez uma menina que adorava bebés. Quando alguém lhe perguntava:
__  De que é que tu gostas, minha menina?
Ela respondia:
__ De bebés.
Ou:
__ O que é que tu queres?
 __ Ela respondia:
__ Um bebé.
Se lhe perguntavam em que estava a pensar, respondia:
__ Num bebé. Eu queria um bebé!...
Os adultos passavam a vida a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas, só para ouvirem as mesmas respostas de sempre. E achavam muita graça à menina e riam-se com as suas tiradas. Mas a menina não percebia onde estava a graça.
Um dia a família foi visitar uns tios da menina, que viviam muito looooonge, lá para os lados da capital. Esse lugar chamava-se Lugar de Murches. A casa dos tios tinha um enorme quintal com uma horta. Nos fins-de semana e depois do trabalho, o tio cultivava tomates, abóboras, uvas, cebolas e outras coisas. Lá havia uma capoeira, um pombal, e até…vejam lá! Coelhos. Em casa da avó da menina também havia capoeira com galinhas, mas a avó da menina não gostava que  brincasse com elas, pois dizia que lhe podiam furar os olhos. E também havia um pombal grande, que o pai tinha construído, com muitos pombos. Coelhos é que a menina nunca tinha visto. E ficou ali, muito espantada, a olhar para eles. O tio percebeu a admiração da menina, e, como gostava muito desta sobrinha, filha da sua irmã mais nova, tirou da coelheira um coelhinho branco que mais parecia uma bola de algodão, e colocou-o no colo da menina. A menina estremeceu de contente. Começou a fazer-lhe festinhas, com toda a delicadeza, a dar-lhe beijinhos, a falar com ele com toda a ternura. O bichinho aninhou-se no colo da menina.
O tio da menina enterneceu-se, e disse:
__ Olha, olha, o coelho gostou de ti.
A menina não respondeu: abraçou-se ao coelho, esfregou o rosto no pelo do animal,  e só o deixou voltar para a coelheira, quando o tio lhe explicou que o bichinho já devia estar com saudades da mãe.
Nos oito dias que ali passaram, a menina só queria estar junto daquele coelhinho, e o tio satisfez-lhe a vontade.
O grande problema foi na hora de voltar para casa. A menina agarrou-se ao bicho, e chorava, chorava, chorava.
__ Eu gosto muito dele! E ele também gosta de mim! Eu não quero ir embora sem o meu Coelhinho!
O tio não conseguiu resistir à tristeza da sobrinha, e declarou:
__Bom, isto foi um caso de amor à primeira vista. Pois o coelho é teu, minha joia!  
Quando a menina ouviu estas palavras, o seu contentamento não teve limites. Abraçou o tio com um bracinho, enquanto com o outro segurava o seu tesouro contra o peito.
O tio arranjou uma caixa de cartão, e fez-lhe uns furos para o coelhinho poder  respirar. A pequena bem queria fazer a viagem com ele ao colo, mas o pai disse que não, que ele ia sujar o carro todo. E quando o pai dizia que não, era mesmo não. E a caixa viajou no porta-bagagens da carrinha. A pequena estava constantemente empoleirada no banco, sem tirar os olhos da caixa, com medo de que ela pudesse desaparecer. Naquele tempo ainda ninguém tinha inventado as cadeiras nem os cintos de segurança nos carros. A viagem era estafante, e ela acabou por adormecer.
Quando chegaram a casa, onde decidiram colocar o coelho? No pombal. A menina ainda sugeriu que o queria a dormir na sua cama, mas o pai disse, meio sério, meio a rir:
__ Tu não sabes o que dizes!
O pombal, além das casinhas para cada casal de pombos, tinha um espaço muito grande, com rede a toda a volta, para eles poderem voar, e, por isso, o coelhinho, ocupou uma das casinhas do rés-do-chão que estava vaga. E ali ficou, em são convívio com os pombos. E a garotinha nunca mais falou em bebés.
Certo dia, a menina ouviu uma conversa que a deixou intrigada. O caseiro dizia ao pai que devia dar milho e água ao coelho, para crescer mais depressa e ficar muito saboroso.
O tio tinha-lhe ensinado que os coelhos gostavam de cenouras, alface, couves, e o Zé da Volta queria dar-lhe milho? Ela sabia muito bem o que queria dizer saboroso, porque o pai, às vezes, quando estava a comer, dizia:
__Ó mulher, isto está muito saboroso!
Mulher era como o pai chamava a mãe. E fazia uma cara de contentamento, por isso, saboroso é uma coisa boa, uma coisa de que se gosta.
A menina achava que o seu Coelhinho já era bastante saboroso, pois ela gostava muito dele, mas, se ainda ia ficar mais saboroso, melhor. Por isso não se espantou, quando o seu Coelhinho começou a ser alimentado com milho e água. Ao princípio, o coelho parecia não gostar muito desta dieta.
__ Olha, Coelhinho, é muito importante! Tens que comer, para cresceres, e ficares muito saborooooso, sim?__ explicava a menina com muita meiguice. E acompanhava as explicações fingindo levar o milho à boca e mastigar.
__Tão saboroso! __dizia.
Parece que ele percebeu, pois acabou por comer e nunca mais recusou este alimento.
Ela continuava a pegar-lhe ao colo, a fazer-lhe festinhas, a dar-lhe miminhos e a conversar com ele. Mas cada vez era lhe era mais difícil pegar nele.  Estava tão pesado!
Um dia a menina foi dar com o irmão a correr atrás do seu Coelhinho, fora do pombal. E disse-lhe:
__Não faças isso! O Coelhinho não gosta! Fica muito cansado!
__Ora! Quando for para a panela, o cansaço passa-lhe.
__Para a panela?! Ele não vai a lado nenhum sem mim!__ respondeu, ainda sem perceber o alcance das palavras do irmão. Mas as gargalhadas que ele soltou  feriram-lhe o coração.
__Também queres ir para a panela?! Em arroz de cabidela?!
 A menina ficou parada, de boca aberta, olhos escancarados, a olhar o irmão. De súbito desatou numa gritaria tão grande, tão grande, que a mãe acudiu.
__O que fizeste à tua irmã?
__Eu? Nada! Só lhe disse a verdade!
A pequena soluçava, sem conseguir falar. A mãe pegou-lhe ao colo, a tentar confortá-la
__Ele diiiiii….sse…que…o coooo…eeeeee…lhinho vai prá paneeeeee…laaaa…não vai, pois, não, mamã?
A mãe lançou um olhar furibundo ao filho mais velho.
E, enquanto lhe afagava os cabelos, dizia-lhe:
__Sabes, filhinha, os coelhos são para comer, como as galinhas…!
__Mas o meu Coelhinho não, pois não, mamã?
__Mas arranjamos outro, sim, meu amor?
__NÃOOOOOOOOOOOOOO! O meu Coelhinho não!
E a menina continuava a soluçar.
__ Pronto, está bem, eu vou falar com o papá, sim?
__Siiiiiiiiim ! O meu Coelhinho não, o meu Coelhinho não.O coelho da menina ficou em paz durante algum tempo. Certa manhã, a garota chegou ao pombal para brincar com o Coelhinho, e ele não estava lá. A mãe então contou-lhe que o Coelhinho adoecera e morrera durante a noite e que o caseiro o levara, para enterrar na quinta. Ela já vira alguns pombos-bebés mortos, e já sabia que a morte apaga a dor das pessoas e dos animais. Por isso chorou, com saudades do Coelhinho. E enquanto as lágrimas iam correndo pela carinha dela, ela dizia para a mãe:  
  __Olha, mamã....eu quero... um bebé, sim...?